Artigos e Histórias
POR DETRÁS DE CADA PORTA,
UMA HISTÓRIA
1. Identificação
1.1. Nome completo: Maria Adélia Moreira Carvalho
1.2. Disciplina criativa: Escrita
Breve Apresentação (Mini-biografia)
Adélia Carvalho nasceu em Vila Cova, uma pequena aldeia de Penafiel, no distrito do Porto. A mais nova de sete irmãs, cresceu encantada pelas histórias contadas pelo avô materno — o primeiro a despertar nela o amor pela imaginação e pelas palavras.
Na ausência frequente da mãe, que trabalhava fora de casa, encontrou companhia nos animais que a seguiam — gatos e cães que muitas vezes escondia e alimentava em segredo.
Licenciada em Educação de Infância pela Escola Superior de Educação do Porto, dedicou-se ao universo das palavras e da infância. Atualmente, é autora de mais de trinta livros infantojuvenis e programadora de festivais literários.
Co-fundou a editora Tcharan, juntamente com a ilustradora Marta Madureira, e abriu a Livraria Papa-Livros no Porto — um espaço de encontro entre leitores, autores e histórias.
Os seus livros estão traduzidos em vários países, incluindo Itália, Alemanha, Espanha, Colômbia, México e Peru, e é presença habitual em feiras e festivais literários, tanto em Portugal como no estrangeiro.
Portefólio / Exemplos de Trabalho
Título: Era uma vez um Cão
- Texto: Adélia Carvalho
- Ilustração: João Vaz de Carvalho
- Editora: Tcharan
- Louças: Vista Alegre
Título: O que é a Família?
- Texto: Adélia Carvalho
- Ilustração: Gabriela Araújo
- Editora: Tcharan
Título: Mário e o Comboio da Liberdade
- Texto: Adélia Carvalho
- Ilustração: Nuno Saraiva
- Editora: Tcharan
Título: O Sol à Noite Não Desenha
- Texto: Adélia Carvalho
- Ilustração: Pierre Pratt
- Editora: Tcharan
Título: Um Principezinho
- Texto: Adélia Carvalho
- Ilustração: Guridi
- Editora: Tcharan
Links para portefólios externos
🌐 https://www.tcharaneditora.pt/
🌐 https://papalivros.pt/
Instagram:
Mini-entrevista
P: Como, quando e em que contexto surgiu a livraria Papa-Livros e a editora Tcharan?
R: Em novembro de 2008, após anos a lecionar em várias escolas, decidi abrir um espaço onde a literatura pudesse crescer juntamente com os leitores. Assim nasceu, no Porto, a Papa-Livros — uma livraria dedicada ao público infantil e juvenil.
A inauguração contou com uma madrinha muito especial: a escritora Matilde Rosa Araújo, cuja presença marcou o início de um projeto profundamente ligado ao livro ilustrado.
Desde então, a livraria tem sido palco de lançamentos, apresentações e exposições de ilustração, sempre com a mesma missão: acreditar que a leitura é um portal para a imaginação e proporcionar aos leitores — pequenos e grandes — a magia de cada página.
Dois anos depois, em 2010, surgiu a Tcharan — uma editora focada sobretudo no álbum ilustrado e na literatura infantojuvenil. O primeiro livro publicado foi A Crocodila Mandona e, desde então, a lista só tem crescido.
O nome "Tcharan" surgiu de forma espontânea, entre amigos, ideias e o acaso. Foi lançado um desafio para encontrar um nome e alguém disse, em tom de brincadeira: "Tcharan!". Depois de muitas sugestões, percebi que a resposta estava ali desde o início — na própria palavra que deu início ao jogo.
"Tcharan" ficou, e continua a refletir o espírito com que tudo começou: o espanto, a descoberta e a alegria do mundo dos livros.
P: De todos os teus livros, qual é o que tens mais perto do coração, e porquê?
R: A Crocodila Mandona — foi o livro que deu origem a tudo: a vontade de criar uma editora com a Marta Madureira e de continuar a contar histórias com liberdade e imaginação. Abriu a primeira porta… e muitas outras vieram a seguir.
P: Qual é o maior privilégio que a tua profissão te traz?
R: O maior privilégio é o de nunca estagnar. O mundo dos livros e da cultura mantém-me sempre em movimento — a conhecer pessoas que admiro (e outras que passo a admirar), a partilhar saberes, a aprender todos os dias.
E, no meio de tudo isso, fazer novos amigos é o que dá força e sentido ao meu caminho.
P: Conta-nos o que costumas ter em cima da tua secretária num dia perfeitamente normal.
R: Livros — sempre uma pilha de livros que vai mudando com os dias.
Um copo cheio de canetas e lápis, o meu caderno Moleskine com notas e listas de tarefas, uma caneca de café ou chá, o computador, o telemóvel e, claro, a minha máquina de calcular.
Também há maçãs e frutos secos — cajus, nozes… pequenas reservas de energia para acompanhar as ideias.
P: O que te levou a sediar a Papa-Livros na Bombarda, em 2008?
R: Escolhi a Rua Miguel Bombarda porque, já na altura, tinha uma identidade cultural muito forte, marcada pelas galerias de arte e pelas inaugurações cheias de vida.
Era (e continua a ser) uma zona onde convivem novas estéticas, design e pensamento criativo, com lojas e projetos que respiram arte e contemporaneidade.
Tudo isto ia ao encontro do público que eu procurava para a Papa-Livros: curioso, sensível e aberto ao mundo das ideias e da imaginação.
Como colaborar / solicitar serviços
PAPA-LIVROS
- Venda de livros
- Venda de ilustração
- Organização e curadoria de eventos literários e artísticos, como:
- Festivais Literários
- Festas de Ilustração
- Encontros com autores
- Moderação de conversas
- Horas do conto e sessões em escolas, bibliotecas, etc.
- Apresentações de livros
- Exposições de ilustração
- Visitas de estudo:
- Escolas e infantários — a partir dos 3 anos, com horas do conto ou oficinas de ilustração
- Secundário e Ensino Superior — visitas e conversas sobre ilustração e edição
Contactos:
📧 papa.livros1@gmail.com / encomendaspapa.livros@gmail.com
🌐 https://papalivros.pt/
📞 +351 220 931 549
TCHARAN
- Edição de livros
- Produção de design gráfico
- Paginação de livros
- Representação e comissões artísticas em ilustração e escrita
- Oficinas de escrita criativa
Contactos:
📧 tcharan.editora@gmail.com
🌐 https://www.tcharaneditora.pt/
📞 +351 220 931 549
O Podcast Bombarda é uma série criada pela equipa Bombarda Digital que dá voz a quem faz do Quarteirão um verdadeiro laboratório criativo — entre arte, comércio e comunidade.
No segundo episódio do Podcast Bombarda, entramos no universo dos novos empreendedores que estão a redefinir o que significa ter um negócio criativo no Quarteirão. Com Liliana Alves (Época) e Jorge Azevedo (Cave Bombarda), numa conversa moderada por André Ramos, cofundador da Scar ID, exploramos como uma nova geração está a unir forças, reinventar práticas e manter viva a alma colaborativa de Bombarda.
Detalhes do Episódio
Tema central: O empreendedorismo contemporâneo em Bombarda — coletivo, consciente e resiliente.
Convidados: Liliana Alves (Época), Jorge Azevedo (Cave Bombarda)
Moderação: André Ramos (Scar ID)
Citações-chave
- “É uma evolução e é uma identidade muito bonita que se cria em muitos projetos deste bairro.”
- “Há clientes que se tornaram amigos. Há relações muito, muito fortes dessa porta aberta e das pessoas entrarem no nosso projeto.”
- “Acho que foi uma renúncia a estudo e foi a procura de um espaço diurno, com comida simples e onde pudesse haver um trato informal com as pessoas que levassem esse tipo de relações.”
Por que ouvir
Porque Gerações Novas, Lutas Antigas mostra o lado humano e inspirador de quem empreende com propósito. Um retrato realista e afetuoso de Bombarda — feita de colaboração, criatividade e um espírito coletivo que transforma desafios em oportunidades.
Bem-vindos ao Podcast Bombarda — uma série que nasce do trabalho coletivo da equipa Bombarda Digital e que dá continuidade a um movimento que liga quem vive, trabalha e visita o Quarteirão Bombarda.
Neste episódio, Ana Silva (Copo D'Uva) e Ema Ribeiro (Ó! Galeria) partilham com Dora Gonçalves, técnica superior da Divisão Municipal de Comércio da Câmara Municipal do Porto, o que realmente acontece por trás das montras. Entre conversas sobre gestão de stocks, sazonalidades, fornecedores e canais digitais, revelam o lado menos visível — e muitas vezes mais exigente — de manter uma loja viva num bairro onde o comércio é também cultura.
Detalhes do Episódio
Tema central: O trabalho invisível que sustenta o ecossistema criativo e comercial de Bombarda.
Convidadas: Ana Silva (Copo D'Uva), Ema Ribeiro (Ó! Galeria)
Moderação: Dora Gonçalves (CMP)
Citações-chave
- “Passados 40 ou 50 anos viemos encontrar dois negócios de gerações diferentes na mesma loja”.
- “Quero mostrar ao máximo o trabalho de ilustradores e de ilustração que se está a fazer no mundo.”
- “A partir do momento em que comerciantes e lojistas se unem forma-se uma comunidade coesa que é a alma do Bairro das Artes.”
Por que ouvir
Porque Uma Loja Invisível revela o coração pulsante de Bombarda — feito de dedicação, estratégia e criatividade. Um episódio essencial para quem ama o bairro, apoia o comércio local ou simplesmente quer perceber o que mantém viva a alma das cidades.
Bombarda Maior é um projeto-piloto de inovação social concebido para abordar a inclusão intergeracional em Bombarda. Esta iniciativa procura integrar os residentes seniores – os maiores – no ecossistema criativo e comercial do quarteirão, promovendo uma participação significativa através do envolvimento ocupacional em empresas locais e espaços culturais.
Ao permitir que os maiores assumam papéis activos na sua comunidade, seja através da partilha de competências, do apoio a pequenos negócios ou da participação em actividades orientadas – o projeto Bombarda Maior pretende colmatar as lacunas geracionais, combater o isolamento social e reforçar os laços de vizinhança.
O isolamento social entre os idosos é um desafio crescente no Porto, particularmente em áreas em processo de gentrificação, como o Quarteirão das Artes – Bombarda. A chegada de novas empresas e residentes alterou a dinâmica do quarteirão, fazendo com que muitos idosos perdessem os seus espaços de referência, redes de apoio e interações diárias. Dados recentes revelam que 24% da população residente na freguesia de Cedofeita tem mais de 65 anos, o que faz desta uma das zonas mais envelhecidas da cidade.
A desconexão dos circuitos sociais e culturais afecta a qualidade de vida e pode levar a problemas de saúde física e mental. Apesar da existência de programas institucionais para a terceira idade, são poucas as iniciativas diretamente orientadas para a reintegração social dos idosos na sua própria comunidade, respeitando a sua autonomia e experiência de vida.
O Bombarda Maior é um programa inovador que visa integrar os idosos autónomos na vida comercial e cultural do Quarteirão Bombarda. O projeto permite aos participantes envolverem-se em actividades significativas e reconstruir laços estreitos com o seu quarteirão, promovendo a inclusão social e combatendo o isolamento.
A abordagem combina estágios profissionais de curta duração, interação com comerciantes locais e eventos comunitários que reforçam a coesão social.
Principais elementos do programa
Estágios ocupacionais: De curta duração, integram seniores em lojas, galerias e ateliers do Quarteirão, onde prestam apoio leve (receção a clientes, logística, pequenas montagens) e recebem vouchers para usar no comércio local, devolvendo-lhes propósito e pertença.
Oficinas: Sessões de partilha de conhecimentos verdadeiramente intergeracionais: maiores e mais novos cruzam saber-fazer quotidiano e põem literalmente as mãos na massa em atividades práticas e colaborativas, sempre com um objetivo maior de desenvolvimento local e inclusão social de Bombarda.
Eventos: Encontros comunitários que geram momentos de convívio intergeracionais, celebrando as diferentes fases do programa e mobilizando toda a vizinhança para uma cultura de cuidado e cooperação social.
Mais informações: https://quarteiraocriativo.pt/
Organização e financiamento
O projeto Bombarda Maior é um projeto piloto no âmbito do programa Laboratório de Inovação Social (Lab.IS), promovido pelo Centro de Inovação Social do Município do Porto (CIS Porto), e financiado pelo PRR.
Palavras chave: Bombarda, Inovação, Inovação Social, Séniores, Programa, Estágios, Tempos Livres
Marina Costa é um dos nomes incontornáveis do Quarteirão Miguel Bombarda. Com formação em Design Gráfico, trocou o mundo da publicidade pela criação de espaços que misturam arte, comércio e comunidade. Desde os primeiros projetos — onde o design se cruzava com velharias, poesia, objetos reutilizados e peças de autor — até ao atual Centro Comercial Bombarda, a sua trajetória reflete um impulso constante de renovação e um olhar atento sobre a cidade.
Criadora inquieta, apaixonada por circularidade e reinvenção, Marina tem sido uma das forças que mantêm vivo o espírito de Bombarda: um lugar onde a criatividade é o ponto de encontro entre quem faz e quem descobre.
Percurso e identidade criativa
P: Marina, como começa o teu percurso no mundo da criação e do comércio de autor?
R: Tenho formação em Design Gráfico, mas cedo percebi que não era esse o meu caminho. Quando o digital tomou conta da área, deixei de me rever naquilo. Sempre gostei de trabalhar com as mãos — de misturar materiais, recuperar peças antigas, dar nova vida a objetos. O meu pai tinha uma loja grande, a Italusa, e foi aí que comecei: criei a minha primeira loja, misturando velharias, design, livros, discos, peças de decoração e arte. Era um espaço muito eclético, que refletia bem o que eu sou — alguém que gosta de experimentar e cruzar mundos diferentes.
O projeto Artes em Partes
P: O Artes em Partes foi um dos projetos que marcou o início do movimento criativo em Bombarda. Como nasceu essa ideia?
R: Eu e uma amiga estávamos à procura de um espaço para criar algo diferente — ela queria abrir um café, eu queria continuar ligada às velharias e à arte. Encontrámos um edifício antigo na Rua Miguel Bombarda e decidimos avançar. Em 1998 abrimos o Artes em Partes. A ideia era simples: juntar pessoas de áreas diferentes e criar um espaço de encontro e partilha. Cada divisão da casa tinha um projeto distinto — lojas, galerias, oficinas, música, artes plásticas. Havia uma energia incrível.
P: E qual era o objetivo principal do projeto?
R: Queríamos dar lugar a quem não o tinha. Acolher artistas e criadores independentes, experimentar formatos novos e mostrar que o comércio podia ser também um ato cultural. O Artes em Partes foi um espaço vivo, que inspirou muita gente e ajudou a dar identidade à Miguel Bombarda.
Do Artes em Partes ao Centro Comercial Bombarda
P: O que te levou a criar o Centro Comercial Bombarda?
R: Quando o Artes em Partes terminou, senti que aquele espírito não podia desaparecer. Em 2010 surgiu a oportunidade de ocupar o espaço onde hoje é o CCBombarda, e decidi aplicar a mesma filosofia, mas de forma mais organizada. Sempre pensei neste lugar como uma galeria comercial — um espaço com luz, alma e projetos únicos. Nunca quis fazer um centro comercial tradicional.
P: Que tipo de projetos procuras acolher aqui?
R: Marcas sustentáveis, artistas, designers e artesãos que trabalhem com consciência e qualidade. Gosto de projetos que tenham identidade, que façam reaproveitamento de materiais, que contem uma história. Também criámos o Berdinho, o mercado biológico semanal, que aproxima produtores locais do público urbano. É isso que me motiva: juntar pessoas que acreditam no valor das coisas bem feitas.
Comunidade e futuro
P: És uma das fundadoras da Associação Quarteirão Criativo. O que vos levou a criar esta estrutura?
R: Foi a vontade de unir esforços. Já passei por várias tentativas de associativismo na rua, mas esta é diferente. A Associação Quarteirão Criativo nasceu para dar voz a quem faz parte deste ecossistema — artistas, lojistas, galeristas. Queremos criar pontes, melhorar a rua e desenvolver projetos que envolvam toda a comunidade.
P: Que projetos destacas neste momento?
R: O Bombarda Circular, o Afinidades e o Bombarda Maior são exemplos de como queremos pensar a cidade de forma mais sustentável e inclusiva. O Bombarda Maior, por exemplo, envolve pessoas com mais de 60 anos em atividades criativas e de apoio local. É uma forma de criar laços entre gerações e fortalecer o sentido de vizinhança.
Dimensão pessoal
P: Fora do trabalho, o que te inspira?
R: Gosto de joalharia, jardinagem e construção. Tenho uma casa no Alentejo onde passo horas a recuperar coisas antigas. É algo que me acalma e me liga à matéria. Acho que vem daí o meu gosto pela circularidade — pela ideia de que tudo pode ser reutilizado, transformado e reimaginado.
P: E se tivesses de resumir Bombarda numa palavra?
R: Crescimento. Porque este bairro está sempre em transformação, tal como as pessoas que o fazem.
Ao longo das últimas décadas, Marina Costa transformou ideias em lugares e lugares em comunidades. Do Artes em Partes ao CCBombarda, a sua visão ajudou a moldar o caráter criativo e independente do quarteirão. Em cada projeto, há uma constante: a crença de que a arte e o comércio, quando se encontram, podem criar algo maior — um espaço vivo, com identidade e cheio de futuro.
Fernando Santos, galerista com raízes em Amarante, nasceu num ambiente imerso na arte — o pai colaborava com o Museu Amadeo de Souza-Cardoso, o que despertou cedo o seu interesse pela cultura visual. Aos 22 anos abriu a primeira galeria de arte contemporânea em Amarante. No final dos anos 80, integrou a Galeria Nasoni, onde passou sete anos que descreve como uma verdadeira "universidade".
Em 1993 lançou a sua própria galeria no Porto, mais tarde também em Lisboa.
Hoje, a Galeria Fernando Santos é uma referência nacional, símbolo de persistência e visão, e peça-chave na formação do Quarteirão das Artes, em Miguel Bombarda.
Percurso e identidade criativa
P: Fernando, conte-nos: quem é o homem por detrás da Galeria Fernando Santos?
R: Sou alguém que gosta do que faz. Nasci ligado ao Museu Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante, e desenvolvi este projeto ao longo de quase 40 anos, sempre com paixão. A relação próxima com artistas e colecionadores foi-se consolidando com o tempo.
P: Que influência teve o trabalho do seu pai no Museu Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante, no percurso artístico por si escolhido, num outro movimento artístico: o da arte contemporânea?
R: Cresci nesse meio institucional. O meu pai fez-me aproximar muito do museu e foi aí que o gosto pela arte se formou. Se não fosse isso, talvez nunca tivesse seguido esta profissão. A cultura exige trabalho e persistência. Criar gosto pelo colecionismo é um processo de confiança — e a galeria tem feito esse trabalho com seriedade, junto de artistas e colecionadores.
P: Pode falar-nos um pouco acerca desse trabalho que tem vindo a ser feito entre a galeria, os artistas e os colecionadores?
R: Comecei em Amarante, depois na Galeria Nasoni, um projeto muito importante onde estive sete anos. Mais tarde instalei-me na Rua Miguel Bombarda, onde estou desde 1997. Tive também uma galeria em Lisboa, mas decidi concentrar-me no Porto. Hoje ocupamos um quarteirão inteiro e prestamos um verdadeiro serviço cultural à cidade.
P: Li numa entrevista ao site "Arte Capital" que sua colaboração com a Galeria Nasoni foi o passaporte de entrada na cidade invicta. Porque se refere a esta Galeria com uma verdadeira "universidade"?
R: Porque não há escolas para formar galeristas. Aprende-se no contacto direto com artistas e colecionadores. As galerias são as verdadeiras escolas, onde os colaboradores ganham experiência antes de criarem os seus próprios espaços ou seguirem para instituições museológicas.
P: O que ia na cabeça de um jovem que aos 22 anos de idade decide inaugurar a própria Galeria de Arte? Quais eram as suas aspirações nessa altura?
R: Por acaso e oportunidade. Em 1993 a galeria estava localizada na Rua D. Manuel II, mas a Rua Miguel Bombarda tinha espaços disponíveis e preços acessíveis. Instalei-me aqui por volta de 1997.
Miguel Bombarda e o início de um movimento
P: É considerado pioneiro nesta zona. Como foi o processo de atrair colegas para formar o que hoje conhecemos como o "Quarteirão das Artes"?
R: O processo foi natural. Havia espaços vagos, e outros galeristas acabaram por se juntar. A cidade, com o tempo, reinventou-se. O título "Porto Capital da Cultura" deu um impulso enorme, e o turismo também ajudou. Mas para haver turismo tem de haver cultura — e cabe-nos oferecer propostas de qualidade, para que quem nos visita leve uma boa imagem da cidade.
Espaços e Acessibilidade
P: A galeria cresceu e interligou vários espaços — Project Room, CUBO, Espaço 531. O que o motivou a expandir?
R: A expansão resultou de uma espera de 15 anos até conseguirmos o espaço ideal. Hoje a galeria tem cerca de 1200 metros quadrados. Unificámos os espaços para potenciar o percurso expositivo. Não podemos ficar parados — há sempre novos projetos em andamento.
Arte, comunidade e cultura urbana
P: Tem dito que a relação entre artista, galerista e colecionador é quase familiar. Como constrói esses laços de confiança?
R: Sendo corretos e coerentes; a confiança leva tempo a construir-se. Além das exposições, promovemos tertúlias, conversas e colaborações com museus e centros de arte em várias cidades. Essas parcerias fortalecem o meio artístico e aproximam pessoas.
P: Vislumbra um dia ter um museu de arte contemporânea portuguesa que faça justiça ao que se produz hoje?
R: Não, nunca pensei nisso (risos). A galeria já funciona como um centro de arte ativo, com exposições e atividades durante todo o ano. Sou também colecionador, e o meu foco é conciliar bons investimentos e boa arte.
Desafios Recentes
P: Como tem sido a experiência recente da Galeria Fernando Santos na ARCOLisboa 2025? Afinal, em 2024 marcaram presença e "venderam quase tudo"; como está o balanço deste ano?
R: Participamos em feiras há muitos anos. São oportunidades únicas de divulgar artistas, conhecer novos colecionadores e perceber o que se faz na arte contemporânea. A ArcoLisboa é hoje um evento de referência, com grande presença internacional e um excelente espaço de networking. Aconselho todos a visitar feiras de arte — é a melhor forma de compreender o panorama atual.
Olhando para o futuro
P: Como vê o Quarteirão das Artes daqui a 5 ou 10 anos?
R: Gostava que a Câmara tornasse a rua mais agradável e acessível — talvez pedonal, com passeios largos. Há carros em cima dos passeios, pouca mobilidade. Fazer cultura é trazer as pessoas à rua, e precisamos de condições para isso: espaços acessíveis, seguros, onde famílias e crianças circulem com conforto.
P: Que planos tem para a Galeria Fernando Santos?
R: Continuar a fazer o que temos feito: apoiar artistas, dinamizar o Quarteirão e tornar a cidade mais apelativa. Educar para a arte é o nosso contributo para que o Porto nos entenda, nos visite e nos acolha.
Ao atravessar a Rua Miguel Bombarda, percebe-se o legado de Fernando Santos: mais do que uma galeria, um espaço de encontros e descobertas. Trinta anos depois, a Galeria Fernando Santos continua a pulsar com energia — entre tradição e inovação, artistas consagrados e artistas emergentes.
O verdadeiro impacto está nas relações humanas, na comunidade construída e na forma como um quarteirão se reinventou à sua volta. Para Fernando Santos, gerir uma galeria é, acima de tudo, cultivar uma família — e a arte é o elo que nos une.
Site da Galeria Fernando Santos: https://galeriafernandosantos.com/