Fernando Santos: O Homem, a Galeria e a Cidade 

Fernando Santos, galerista com raízes em Amarante, nasceu num ambiente imerso na arte — o pai colaborava com o Museu Amadeo de Souza-Cardoso, o que despertou cedo o seu interesse pela cultura visual. Aos 22 anos abriu a primeira galeria de arte contemporânea em Amarante. No final dos anos 80, integrou a Galeria Nasoni, onde passou sete anos que descreve como uma verdadeira "universidade".

Em 1993 lançou a sua própria galeria no Porto, mais tarde também em Lisboa.

Hoje, a Galeria Fernando Santos é uma referência nacional, símbolo de persistência e visão, e peça-chave na formação do Quarteirão das Artes, em Miguel Bombarda.

Percurso e identidade criativa

P: Fernando, conte-nos: quem é o homem por detrás da Galeria Fernando Santos?

R: Sou alguém que gosta do que faz. Nasci ligado ao Museu Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante, e desenvolvi este projeto ao longo de quase 40 anos, sempre com paixão. A relação próxima com artistas e colecionadores foi-se consolidando com o tempo.

P: Que influência teve o trabalho do seu pai no Museu Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante, no percurso artístico por si escolhido, num outro movimento artístico: o da arte contemporânea?

R: Cresci nesse meio institucional. O meu pai fez-me aproximar muito do museu e foi aí que o gosto pela arte se formou. Se não fosse isso, talvez nunca tivesse seguido esta profissão. A cultura exige trabalho e persistência. Criar gosto pelo colecionismo é um processo de confiança — e a galeria tem feito esse trabalho com seriedade, junto de artistas e colecionadores.

P: Pode falar-nos um pouco acerca desse trabalho que tem vindo a ser feito entre a galeria, os artistas e os colecionadores?

R: Comecei em Amarante, depois na Galeria Nasoni, um projeto muito importante onde estive sete anos. Mais tarde instalei-me na Rua Miguel Bombarda, onde estou desde 1997. Tive também uma galeria em Lisboa, mas decidi concentrar-me no Porto. Hoje ocupamos um quarteirão inteiro e prestamos um verdadeiro serviço cultural à cidade.

P: Li numa entrevista ao site "Arte Capital" que sua colaboração com a Galeria Nasoni foi o passaporte de entrada na cidade invicta. Porque se refere a esta Galeria com uma verdadeira "universidade"?

R: Porque não há escolas para formar galeristas. Aprende-se no contacto direto com artistas e colecionadores. As galerias são as verdadeiras escolas, onde os colaboradores ganham experiência antes de criarem os seus próprios espaços ou seguirem para instituições museológicas.

P: O que ia na cabeça de um jovem que aos 22 anos de idade decide inaugurar a própria Galeria de Arte? Quais eram as suas aspirações nessa altura?

R: Por acaso e oportunidade. Em 1993 a galeria estava localizada na Rua D. Manuel II, mas a Rua Miguel Bombarda tinha espaços disponíveis e preços acessíveis. Instalei-me aqui por volta de 1997.

Miguel Bombarda e o início de um movimento

P: É considerado pioneiro nesta zona. Como foi o processo de atrair colegas para formar o que hoje conhecemos como o "Quarteirão das Artes"?

R: O processo foi natural. Havia espaços vagos, e outros galeristas acabaram por se juntar. A cidade, com o tempo, reinventou-se. O título "Porto Capital da Cultura" deu um impulso enorme, e o turismo também ajudou. Mas para haver turismo tem de haver cultura — e cabe-nos oferecer propostas de qualidade, para que quem nos visita leve uma boa imagem da cidade.

Espaços e Acessibilidade

P: A galeria cresceu e interligou vários espaços — Project Room, CUBO, Espaço 531. O que o motivou a expandir?

R: A expansão resultou de uma espera de 15 anos até conseguirmos o espaço ideal. Hoje a galeria tem cerca de 1200 metros quadrados. Unificámos os espaços para potenciar o percurso expositivo. Não podemos ficar parados — há sempre novos projetos em andamento.

Arte, comunidade e cultura urbana

P: Tem dito que a relação entre artista, galerista e colecionador é quase familiar. Como constrói esses laços de confiança?

R: Sendo corretos e coerentes; a confiança leva tempo a construir-se. Além das exposições, promovemos tertúlias, conversas e colaborações com museus e centros de arte em várias cidades. Essas parcerias fortalecem o meio artístico e aproximam pessoas.

P: Vislumbra um dia ter um museu de arte contemporânea portuguesa que faça justiça ao que se produz hoje?

R: Não, nunca pensei nisso (risos). A galeria já funciona como um centro de arte ativo, com exposições e atividades durante todo o ano. Sou também colecionador, e o meu foco é conciliar bons investimentos e boa arte.

Desafios Recentes

P: Como tem sido a experiência recente da Galeria Fernando Santos na ARCOLisboa 2025? Afinal, em 2024 marcaram presença e "venderam quase tudo"; como está o balanço deste ano?

R: Participamos em feiras há muitos anos. São oportunidades únicas de divulgar artistas, conhecer novos colecionadores e perceber o que se faz na arte contemporânea. A ArcoLisboa é hoje um evento de referência, com grande presença internacional e um excelente espaço de networking. Aconselho todos a visitar feiras de arte — é a melhor forma de compreender o panorama atual.

Olhando para o futuro

P: Como vê o Quarteirão das Artes daqui a 5 ou 10 anos?

R: Gostava que a Câmara tornasse a rua mais agradável e acessível — talvez pedonal, com passeios largos. Há carros em cima dos passeios, pouca mobilidade. Fazer cultura é trazer as pessoas à rua, e precisamos de condições para isso: espaços acessíveis, seguros, onde famílias e crianças circulem com conforto.

P: Que planos tem para a Galeria Fernando Santos?

R: Continuar a fazer o que temos feito: apoiar artistas, dinamizar o Quarteirão e tornar a cidade mais apelativa. Educar para a arte é o nosso contributo para que o Porto nos entenda, nos visite e nos acolha.

Ao atravessar a Rua Miguel Bombarda, percebe-se o legado de Fernando Santos: mais do que uma galeria, um espaço de encontros e descobertas. Trinta anos depois, a Galeria Fernando Santos continua a pulsar com energia — entre tradição e inovação, artistas consagrados e artistas emergentes.

O verdadeiro impacto está nas relações humanas, na comunidade construída e na forma como um quarteirão se reinventou à sua volta. Para Fernando Santos, gerir uma galeria é, acima de tudo, cultivar uma família — e a arte é o elo que nos une.

Site da Galeria Fernando Santos: https://galeriafernandosantos.com/

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